Jornal ‘O Perú Molhado’ faz 34 anos e luta para se manter ativo

‘O Pasquim’ do balneário passa por crise após a morte de Marcelo Lartigue.
Periódico é conhecido principalmente pelo jornalismo irreverente.

Jornal passa por crise financeira após a morte de Marcelo Lartigue (Foto: Divulgação O Perú Molhado)
Jornal passa por crise financeira após a morte de
Marcelo Lartigue (Foto: Divulgação O Perú Molhado)

As risadas, polêmicas e críticas às administrações de Armação dos Búzios, na Região dos Lagos do Rio, proporcionadas por narrativas que fogem às regras básicas do jornalismo, correm o risco de ficarem para trás. Ou melhor, devem ficar somente na memória e nas 1.234 edições publicadas pelo carinhosamente chamado de “Pasquim do litoral do Rio de Janeiro”. A referência se dá devido à irreverência com que O Perú Molhado trata as notícias.

O jornal está completando 34 anos nesta segunda-feira (23) e passa por grave crise financeira. O jornal sofre para encontrar apoio a fim de se manter ativo em meio a uma mídia cada vez mais virtual.

O periódico mais antigo da cidade, que participou ativamente do processo de emancipação do balnéario e, de certa forma, ajudou a contar a história do município, sempre sofreu com problemas de administração. Após a morte do editor-chefe, Marcelo Lartigue, em setembro de 2014, a situação piorou. Muitos colaboradores deixaram de anunciar nas páginas do jornal.

Responsável por comandar o jornalismo de O Perú Molhado desde que Marcelo Lartigue morreu, Victor Viana, de 33 anos, revela como os problemas do jornal começaram. Segundo o repórter, que era muito próximo do jornalista argentino, as pressões que o veículo sofre diariamente fazem com que o entusiasmo pelo jornal diminua com o passar do tempo.

“A crise começou durante o período mais crítico da doença do Marcelo. Fomos reduzidos a uma pequena equipe que vinha fechando as edições, muitas vezes, sem a presença física dele, que estava muito fraco. Mesmo assim, sua mente não parava, ele fazia planos e inventava pautas únicas” disse Victor Viana, acrescentando que os dias eram tensos e cheios de incertezas.

O Perú Molhado é conhecido pelo jornalismo irreverente (Foto: Victor Viana/Arquivo pessoal)
O Perú Molhado é conhecido pelo jornalismo irreverente (Foto: Victor Viana/Arquivo pessoal)

Repórter do jornal desde 1999, Sandro Peixoto, de 50 anos, que era amigo pessoal de Marcelo Lartigue, lamenta a situação do veículo. De acordo com o escritor, a lacuna deixada pelo antigo editor-chefe do Perú Molhado não pode ser preenchida por se tratar de uma forma de jornalismo muito característica.

“O Perú Molhado é igual ao Brasil. Está sempre em crise. Mas com a morte do Marcelo ficou mais difícil. Ele é a alma do jornal. Ele tinha um talento raro para abordar tudo. Sabia o que era notícia. Tinha um olhar peculiar, para montar um jornal também peculiar. Eu pergunto se, assim como os portugueses não sobreviveram sem o poeta Fernando Pessoa, o Perú sobreviverá sem o Marcelo Lartigue?”, questionou Sandro Peixoto, que tem desembolsado verba pessoal para se manter trabalhando, sem retorno financeiro do jornal.

Português Aníbal Fernando ao lado do companheiro Marcelo Lartigue (Foto: Divulgação O Perú Molhado)
Português Aníbal Fernando ao lado de Marcelo Lartigue (Foto: Divulgação O Perú Molhado)

A criação de O Perú Molhado 
Nascido na Argentina, Marcelo Lartigue foi correspodente internacional de jornais franceses durante muito tempo. No Brasil, se apaixonou pela paradisíaca Armação dos Búzios, onde criou, no dia 23 de fevereiro de 1981, ao lado do português Aníbal Fernando, o primeiro jornal da cidade. Intitulado de O Perú Molhado, no inicio, o jornal saía quando era possível, e durante muito tempo o veículo carregou esse slogan. Entretanto, com o tempo passou a ser mensal, quinzenal e finalmente semanal.

Atualmente, o periódico continua com tiragem semanal de 10 mil exemplares e é distribuído nas principais bancas do Rio de Janeiro, Cabo Frio, Búzios, Macaé e Rio das Ostras. Existem muitas especulações das razões e significados dos nome do jornal. No entanto, conforme afirmava o próprio Marcelo Lartigue, “todas as teorias são mentirosas”.

O maior jornal impresso do mundo
Em 2008, Marcelo Lartigue foi convidado para participar do Programa do Jô para contar a história do jornal e comentar sobre o prêmio de maior jornal do mundo dado pelo Guinness. Na ocasião, o jornalista havia publicado a maior cópia de um jornal impresso, medindo 2,7m por 3,4m. A publicação foi apresentada na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, no dia 11 de novembro de 2007. Confira a entrevista no vídeo abaixo.

Luta para manter a obra de Marcelo Lartigue
Após a morte de Marcelo Lartigue, no dia 2 de setembro de 2014, o fim do jornal chegou a ser cogitado, afinal, o jornalista sempre foi a alma de toda a irreverência de O Perú Molhado. Os funcionários do jornal, no entanto, com a autorização da filha e herdeira de Lartigue, a jovem Eva Lartigue, uniram forças com alguns colaboladores para mantê-lo em circulação.

Marcelo Lartigue morreu no Rio das Janeiro após um transplante de fígado (Foto: Arquivo / Jornal 'O Perú Molhado')
Marcelo Lartigue faleceu em novembro de 2014
(Foto: Arquivo / Jornal ‘O Perú Molhado’)

Para a relações públicas Sylvana Graça, de 43 anos, que atua no jornal há 17, só existe uma salvação para o periódico se manter ativo: os funcionários e os colaboradores, que há tanto tempo se doam pelo periódico, se unirem. “Minha relação com o Perú Molhado começou há 17 anos, assim que eu cheguei em Búzios. Eu conheci o Marcelo Lartigue fotografando. Ele sempre entrava na frente das minhas fotos (risos). Foi então que fizemos amizade e eu passei a fotografar para o Perú como editora. Deixei o jornal, mas desde que ele morreu eu me senti na obrigação de dar uma força. O Perú não pode acabar. Ele faz parte da história de Búzios. Acho que todos deveriam ajudar. Acho que o momento é dos funcionários e colaboradores se unirem para fazer um jornal melhor para a cidade”, afirmou.

É com certa tristeza no discurso que o repórter Victor Viana reconhece os problemas do jornal e tenta manter o otimismo quanto à continuidade do veículo.

“Até acredito que o Perú pode continuar como jornal, tendo o mesmo nome. Mas não sei se conseguirá, infelizmente, ser o Perú que todos conhecemos. Minha relação com o jornal é, antes de tudo, de um admirador. Sempre gostei e li o Perú, colaborei de graça por um tempo, até que um dia Marcelo me mandou um e-mail me chamando pra trabalhar com ele. Acumulei todas as funções e acho que posso dizer que fui amigo dele. Mas, sinceramente, não sei dizer sobre como manter o jornal ativo”, declarou.

Sandro Peixoto, por outro lado, avalia que o jornal precisa ser abraçado pelos empresários para se manter ativo. “O jornal precisa de mais apoio. Se os empresários ajudassem, tudo melhoraria. Mesmo que fosse com uma quantia pequena. Todos querem a circulação do jornal e reclamam quando não sai, mas não se preocupam em ajudar”, disse.

Festa de 34 anos
No último sábado (21), apesar da crise, Búzios deu inicío às comemorações pelo anivesário de 34 anos d’O Perú Molhado. A tradicional feijoada de verão do jornal foi realizada na Orla Bardot e reuniu diversas pessoas. Personalidades da cidade, assim como o prefeito André Granado, estiveram presentes. Um grupo de pagode foi responsável por comandar a festa.

Grupo de pagode agitou a feijoada em Armação dos Búzios, RJ, no final de semana (Foto: Gustavo Garcia)
Grupo de pagode agitou a feijoada em Armação dos Búzios, RJ, no final de semana (Foto: Gustavo Garcia)

in G1 Globo